Olhos que foram olhos

 

 

 

Da nuvem fez-se encanto

de puro enlace envolvente
Olhos que foram olhos ardentes
a perderem-se, ladeados, tanto

Da nuvem fez-se encanto

de puro enlace envolvente
Olhos que foram olhos ardentes
a perderem-se, ladeados, tanto

Por esses corredores mergulhados
à saciedade. Vividos e torpes
olhos que foram olhos abandonados
à maré sacudidos, procela da noite

Parva angústia aproximou-se
obscura, soturna num lampejo
como um badalo que abalou-se
frente ao tempo, um tropeço.

Viu-se pela greta a voz suave
que amável sussurrou serena
o insuspeito tom mais grave:
“olhos que foram olhos apenas”!

Perdido a dentro em contusão
brindou a lágrima à derradeira
alma quebrada em solidão
própria, vil, odiosa e forasteira

Então: viram-se jogados ao solo:
os olhos que nunca foram olhos
nadando em perspectiva, assombrados
e para a corrente do não consolo
pela torrente firme eram levados

Afundaram-se para sempre em lama
como quem verdadeiramente ama
e, já como um, na argila ancorou
e jaz frio, para sempre calado,
junto ao lírio que desabrochou.

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Um só coração

Amo-te, meu amor, não omitas
o sentimento que por mim tens
viva-o, solte-o, insista
Que eu deixo o meu viver também

Juntos seremos um em dois
um amor intenso, o maior da vida
não interessa mais o depois
somente o agora, preferida

forma de viver contigo
ao seu lado sempre, inteiramente
“encontrei meu gentil abrigo”

Quero que o hoje, o presente
eternize-se em “nós dois” então,
e que de dois se faça um só coração.

Premente a volúpia ardente:
Símbolo apócrifo do poeta
Que dentre a farsa evidente
Reluz vetorial a seta inserta

E tudo era convergente
Mesmo a forma secreta
Que deriva sonoramente
Da profecia do profeta

Virtude antológica primaz
Que adorna a pureza mais pura
Trazei-me lívida a torrente

Da soberana matéria escura
Que renasce e nunca satisfaz
Incompleta, mas completamente

Ontem, na cama tua
Éramos três
Eu, você e você-nua.

Inteireza x Incompletude

Passei muito tempo em busca da “inteireza”das coisas. Aliás que palavra! Sempre me comoveu o sentido que a palavra “inteireza” ousava propor. Lembro-me com detalhes do dia em que pela primeira vez a li. Fiquei deslumbrado! Atordoado! Foi um instante mágico, diria.

Imagina conquistar a tal inteireza, dos sentidos, dos propósitos, das intenções, das virtudes, da transcendência, da abstração, da lógica. Seria finalmente a profunda descoberta tão esperada de mim mesmo, da razão da existência.

Acontece que a cada dia essa busca foi se revelando cada vez mais árdua. Afinal o que é “inteireza”? Como alcançá-la? Infrutíferos foram os propósitos nesse sentido. Será que a “inteireza” das coisas nunca existiu e nunca existirá? Será uma utopia profanada por um otimista ingênuo? Não sei. Fato é que debalde restaram as investidas: nunca descobri.

Finalmente o sentimento do vazio foi apoderando-se de mim. Uma frustração cada vez mais pastosa e opaca. A descrença de propósito do mundo. As possibilidades reais da auto-destruição. A verdade crua sangrando. A dor pungente das feridas acesas. O desconcerto do mundo. A ausência de um projeto superior transcendental. A sensação de ser passageiro em um veículo desgovernado. A percepção do intangível. A incerteza de tudo. O véu escuro que afasta o futuro. A sensação amarga da descrença.

Mas o sol também se levanta! E um dia um raio de esperança iluminou-me como uma alvorada em alvoroço. E veio da poesia. Como deveria ser. Tive o prazer de ler um cara cujo nome é ninguém menos que Manoel de Barros. Iluminou-se-me um atalho. Ele tinha a resposta. Percebi que passo a passo percorria um caminho “caminhável”: falara de uma outra palavra, de uma de tal “Incompletude”, que seria a maior riqueza do homem.

Agora sim! Tudo começava fazer sentido. As peças começam a se encaixar nesse quebra-cabeça martelante! E logo percebi que pela primeira vez a palavra “inteireza” tomou corpo, foi desenhada num contorno tangível. Nasceu vívida, mostrou-se clara, percebi-a consolidada perante mim e descobri solene e finalmente que a única inteireza possível nessa vida é a inteireza da incompletude!

E essa, agora, é também a minha maior riqueza.

Soneto

Os móveis são os mesmos, emocionados,
E o vento bate três vezes os anos,
Onde jasmins invictos, artesianos,
ornaram todos os passos malcriados.

E que muito além da charneca rude
há um florido campo de margarida,
mas que o perfume intenso da vida
envolve, arrebata acalenta e ilude!

A porta duvidava a vasta vista,
A luz se dissipando na maçaneta,
Nessa desabitada mão do poeta.

O olhar distante, abolicionista,
Abre-se ao silêncio inquisitivo
Que me adentra e sopra: está vivo.

Com Vinícius Magalhães

Percalço

No percalço de alumbramento
distraído de encanto
percebo a todo instante o vento
que bate afastando o pranto.

Embebido de ditoso espanto
aperto forte a espiral da vida
por esse alvoroço me levanto:
a maldizer a sentença proferida!

Prognóstico sombrio me persegue
com o instinto mais que perceptível
aduzindo a luminosidade que prossegue

Nefasto tempo que há séculos verte
cuja aparência soa mais horrível
que a aparência do oráculo inerte.

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